Domingo, Julho 05, 2009

A minha soma perfeita do quadrado dos catetos.

Se eu tiver sorte, ainda ando na roda-gigante tomando picolé de chocolate num final de tarde cor de laranja de um Janeiro qualquer. E você vai ficar me olhando, com aquele olhar de quem não acredita como tanta felicidade pode caber no sorriso que sai da minha boca pequena e dos meus olhos de cor estranha. E eu vou me sujar com o picolé, como qualquer menina de sete anos de idade. Mas se eu tiver sorte, você vai ter levado uns guardanapos no bolso para limpar meus dedos, que eu não ia me importar tanto assim em lamber.
O laranja do sol se pondo ia combinar com a sua camisa pólo azul, com seus olhos sujos de sonhos, com os nossos planos todos, aqueles que envolvem uma casa de praia verde e rosa, a rede branca, o peixe temperado com limão, e, se eu tiver sorte, todos os feriados do ano.
E quando o moço parasse a roda-gigante, meu vestido rosa ia fingir que ia voar, só pra você colocar a mão na minha coxa e me fazer lembrar bem do nosso começo, quando você tentava descobrir cada partezinha do meu corpo, enquanto eu suspirava duzentas vezes por dentro, e tirava as suas mãos com uma cara de que nada estava acontecendo. Eu tive que fingir que aquele frio na barriga todo ia passar nos próximos dois dias, e que você devia ter um mil defeitos escondidos, porque não era possível existir alguém tão perfeito pra mim. Eu sabia disso por causa dos meus pés, que não eram nem 35 nem 36, e me faziam sofrer pra achar um sapato que eu gostasse muito, e que coubesse do jeito perfeito. Depois dos sapatos, eu me acostumei a não ter nada perfeito pra mim. Esse nada envolvia calça jeans, anéis, tamanhos de argolas, guarda-roupas, e é claro, meninos. Eu passei uma vida inteira me acostumando à meninos imperfeitos, até você aparecer.
E por isso, foi tão difícil pra mim, você sabe. Eu sempre ficava te dizendo o quanto eu não gostava tanto de você, que a gente não combinava tanto, que eu não sabia tanto assim sobre música, que eu não fazia tanta questão de sair com você aos domingos. Tudo aquilo era só uma estratégia pra me manter no lado seguro, só pra não derrubar o muro que eu gastei tanto tempo construindo e reformando, só pra não dizer na sua cara que, desde aquele dia da festa barulhenta e do melhor primeiro beijo do mundo, eu estava louca por você.
Engraçado é que você sempre pareceu saber como eu vivia morrendo de medo de gostar tanto de você. Às vezes te pegava rindo do meu nervosismo e de como eu ficava subindo e descendo o vidro-elétrico do teu carro só pra não ficar te olhando dirigir e cantar Nina Simone com o seu francês fluente de três anos morando em Paris. Eu gastava esse tempo com o vidro-elétrico, e repetia mentalmente: 'Ele não pode ser tão perfeito, Ele não pode ser tão perfeito'. Mas você sempre foi, e eu tive que me acostumar. Me acostumei tanto, que hoje em dia, eu quero tudo perfeito. Perfeito pra mim, é claro.
Se eu tiver sorte, vai estar tocando em algum lugar 'You're a big girl now', e a gente vai se olhar, e lembrar do primeiro raiar de sol que a gente viu na varandinha do seu quarto. Eu vestindo aquela sua camisa do Led Zeppelin, e cabendo direitinho no seu colo, enquanto você mexia nos meus cabelos, e eu ficava de olho fechado, jurando pra todos os santos, ou pra qualquer outra força que move essa vida, que, se eles parassem o tempo ali, só por uns minutinhos, eu daria qualquer coisa em troca. Minha coleção do Woody Allen, Meus livros do Garcia Marquez e até aquele quadro de Monet que Vovó me deu antes de morrer.
Se eu tiver sorte, a gente ainda vai ter essa tarde de roda-gigante, ou se eu tiver sorte, não. Porque com você, pode ser roteiro de comédia romântica, script de programa de culinária, coluna sobre quadrinhos no caderno de domingo, suplemento especial da Veja, pode ser improviso, rebuliço, desaviso, festa ou comício, mas sempre, com você perto de mim.

Sábado, Julho 04, 2009

Nounouse.

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta, mas não concorda porque ele é muito meu chapa. E quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.

E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.


* Porque é impossível ouvir isso aqui e não lembrar daquele livro com os melhores textos do Vinícius que eu roubava de Thales em todas as aulas de trigonometria do primeiro ano. As páginas cor de caramelho, a foto do poeta com a mão no queixo pra ilustrar a capa, e a primeira vez em que eu li 'Para uma menina com uma flor' na minha vida.

Não adianta, mesmo depois de tantas outras linhas, de tantas outras pessoas, essas vão sem sempre aquelas que deixam meu coração repousado na casinha da felicidade. Essas minhas linhas, do meu poeta, com essa música tocando, essa coisinha toda, tem o mesmo gosto daquele segundo melhor sorvete do mundo que eu tomei hoje. O nome estranho, a cor branquinha e o meu riso frouxo.

Noite de sábado boa é assim.



Quarta-feira, Julho 01, 2009

Pra não deixar de ser equação.

Eu podia me apaixonar por você, mas você acha minhas manias engraçadas e ri da minha cara de criança feliz diante de uma bandeja da Mc Donald's.
Eu podia me apaixonar por você, mas você tem uma família ótima, e ia fazer questão que eu fosse aos almoços de domingo e aos feriadões na casa de praia, e eu ia assistir futebol com o seu pai enquanto você dormia na rede da varanda.
Eu podia me apaixonar por você, mas você me acha bonita sem maquiagem, não se incomoda com os meus dedos tronchos nem nunca morde meu pescoço, porque sabe como eu sempre fico com aquelas manchas roxas constrangedoras.
Eu podia me apaixonar por você, mas você já assistiu todos os meus filmes preferidos, conhece as músicas que eu preciso ouvir todos os dias, sabe onde me levar pra comer minha comida preferida, sabe que eu sempre prendo o cabelo lá em cima da cabeça quando eu tô escrevendo e conhece o jeito certo de me olhar quando eu tô cantando Blood, Sweat and Tears que nem uma maluca.
Eu podia me apaixonar por você, mas você nunca ri das minhas perguntas bestas, não se importa quais bandas de rock eu não conheço e faz questão de gastar a semana inteira pensando no programa de sábado.
Eu podia me apaixonar por você, mas tudo ia ser certo demais, e eu não iria ter motivos nenhum pra apagar a luz do meu quarto, ficar ouvindo Belle and Sebastian e me sentir a menina mais triste desse mundo.
Eu podia me apaixonar por você, mas eu iria parar de ser mal-humorada, parar de escrever os meus contos de separação, parar de dizer aos amigos que eu não aguento mais ficar sozinha e passaria todo o tempo pensando em como você é melhor do que todos os meninos dos filmes que eu cresci assistindo.
Eu podia me apaixonar por você, mas a gente ia ser um daqueles casais perfeitos, que fazem inveja nos bares e cinemas, e todo mundo iria nos xingar, igual ao que eu faço quando vejo um casal assim, feito o que a gente poderia ser se eu me apaixonasse por você.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Da série: Saudade só serve pra gente matar II


Eu sei que ainda falta um mês pro nosso sorvete, pros filmes ruins no cinema, pros cd's de the kooks no carro, ou pr'aquela música do superman que tu adora e que te faz se balançar que nem um maluco, mas hoje eu lembrei que um mês é muito pouco quando comparado com todo esse tempo que tu tás longe. E mesmo do outro lado do mundo [dessa vez, literalmente], tu consegue ficar tão perto de mim, das minhas manias, das marquinhas vermelhas do meu rosto e do meu nariz que tu gosta de ficar apertando. É só fechar o olho, que eu consigo ver teu ritmo acelerado, sentir teu abraço apertado e ouvir a tua voz alta me chamando de 'vermelhinha' pra cima e pra baixo. E é bem nessa hora, de olho fechado e tudo, que eu sinto a saudade dando um nó aqui no coração e a vontade gritando com toda a força do mundo: 'chega logo, chega logo'.

P.S: Pensando melhor, o nome dessa série devia ser: "Saudade só serve pra matar a gente".

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Da série: Saudade só serve pra gente matar I


Porque faltam cinco dias pra ter a pequena ao alcance do meu abraço, das nossas sessões de Sex and the City, das divagações, dos assuntos que nunca acabam, das risadas, do aconchego do quarto frio, do sanduiche de queijo polenguinho, das conversas com Tia Neide na mesa redonda, de tudo que é só nosso, e ninguém entende tão bem assim.
Chega logo, chega logo.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Seis letrinhas mágicas.

Quantas sessões da tarde eu aguentar, quantas noites viradas eu tiver vontade, programa de culinária, reprises da warner, calçadão da praia de olinda, casa de titia, maratona de gilmore girls, todos os livros que eu tô me devendo, fazer almoço, arrumar o guarda-roupa.

Todas essas banalidades agora [quase] estão, oficialmente, de volta.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

É cortar cebola, sabe?

E foi bem naquele dia, era domingo, eu lembro. Acordei com você batendo as panelas na minha cozinha e fazendo uma lista em voz alta, de tudo que precisava comprar, de panela a jogo americano. Se eu não te conhecesse, eu ia achar que você queria comprar tudo aquilo só pra poder cozinhar com todos os utensílios necessários, mas eu sabia que isso era desculpa sua para ir ao Atacado dos Presentes, sua nova mania desse mês. Fiquei encostado na porta, olhando você falar sozinha. Cabelo preso nos palitinhos extras que vieram na comida chinesa da noite anterior, minha camisa do Fluminense e a samba-canção que eu ganhei numa época em que ter a namorada dormindo na mesma casa era coisa de outro mundo. De manhã, teus olhos ficavam ainda menores, e o teu sorriso, quando vinha, porque você era do tipo não-fale-comigo-até-eu-dizer-que-pode, era meio preguiçoso, saía pro mundo em câmera lenta. E era engraçado esse teu sorriso, porque destoava do todo, já que você era Fast Forward o tempo inteiro.
E eu fiquei uns dez minutos te olhando, enquanto você dançava com as minhas panelas, na ponta dos pés aquela música da Billie Holiday que você adorava, e vivia pedindo pra ser a nossa música.
E quando eu dizia que a letra falava de um cara que tinha perdido o brilho no olho, que era triste, e não tinha nada a ver com a gente, você fazia aquela sua cara de abuso, e dizia que eu não entendia de nada mesmo. E se eu ouvisse isso de qualquer outra pessoa, eu ia me importar, porque eu sempre quis entender de tudo, mas vindo de você, eu não conseguia fazer nada além de te puxar pela cintura pra perto de mim, e ficar só calado te olhando, com a tal cara de abuso que só você sabia fazer.
E a música acabava, e você repetia, continuava dançando, e a partir dali, eu já não sabia se você realmente não estava me vendo encostado na porta da cozinha, fumando meu primeiro cigarro de barriga vazia, ou se já tava refogando os tomates e dançando na ponta dos pés só pr’eu ficar ali, abestalhando assistindo. E o pior é que eu fiquei sim. Fiquei até onde eu consegui guardar minha vontade de te puxar pela cintura, aí tive que pedir licença ao escorredor de macarrão e a gente dançou no espaço que sobrava entre a geladeira e o fogão.
Foi naquele dia sim, eu não posso estar errado. Você manchou a minha camisa com molho de tomate, bagunçou a cozinha inteira, passou mais de uma hora ouvindo a mesma música e me fez cortar todas as cebolas da geladeira. E foi justo na parte da cebola, enquanto eu chorava que nem um menino, que você baixou o volume do som, veio andando em direção à mesa, levantou meu cabelo com aquela mão cheirando à comida, e disse, pela primeira vez: eu amo você.