Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Precisa dizer?

O final de semana parece pouco, a semana parece longa demais, o caminho do sono já não é um corredor cheio de pensamentos, as cervejas na calçada não fazem falta, as ressacas dos domingos muito menos, o café da manhã é coca-cola e todo lugar é lugar.
É ouvir Tim Maia e não conseguir parar, é ver o caderno roxo vazio porque escrever coisa boa não tem a mesma graça, é ver os arrependimento descendo pelo ralo, é torcer pra todos os sinais fecharem no caminho de volta, é acordar segunda, esperar pela quarta, acordar quinta, esperar pelo sábado, e assim, de repente, ver que o tempo passou, e que você nem percebeu.
Na verdade, é bem isso mesmo: não perceber.

Sábado, Outubro 10, 2009

Um passo atrás do outro, e a gente chega em algum lugar.

Eu tô aprendendo a respirar.
Devagar mesmo, inspirando, expirando, que nem Titia costumava fazer quando ainda sofria com as mil crises de asma. É importante, sabe? Assim, falar mais devagar, respirar legal, atravessar a rua sem correr, colocar a chave na fechadura de um jeito que ela possa entrar de primeira.
Eu não quero mais apressar meu irmão de manhã no banheiro, nem tirar o pão de queijo do forno antes da hora.
Também venho querendo largar a mania de deixar quatro vídeos carregando ao mesmo tempo no youtube, de jogar minhas almofadas no chão e passar a colocá-las organizadas em cima do baú. Mas isso eu já tô fazendo.
Eu também tô parando de apressar as coisas, largando essa sede doida de que o tempo passe mais rápido, mais rápido até do que o ganhador da São Silvestre, ou de qualquer outra corrida mais internacional. Eu não quero atropelar mais nada, e se possível, eu quero parar de sofrer semi-atropelamentos por bicicletas.
Eu abro os olhos todos os dias, e antes mesmo de tomar meu copo d'água sagrado e de dar um beijo na minha mãe, eu peço paciência. E repito: paciência, paciência, paciência. E eu chamo com carinho pra ela vir depressa, e depois que ela chegar, eu aviso logo: vou tratar a pão de ló, que é pra nunca mais ela querer ir embora.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

O melhor brinquedo do condomínio.

Louco pelos Beatles que era, não dividia as músicas deles com ninguém. Um dia, deitado na cama de solteiro de Maria, numa daquelas tardes de amor de lençol, ela levantou para fazer tocar o Abbey Road. Era a primeira menina da vida dele que gostava de Beatles, e quando ele descobriu isso, já era tarde demais pra terminar. Todo mundo achava loucura, mas nada lhe tirava da cabeça que gostar de meninas que não curtissem os meninos de Liverpool o deixava à vontade pra morrer ouvindo 'Something' sem pensar em nenhuma Carolina, Aline, Luana ou naquela que era a mulher mais maravilhosa do mundo calçando tênis amarelo e blusa do Smiths.
Ela procurava o cd na prateleira enquanto ele pensava em mil desculpas para sair correndo do quarto:

- Eu tô sentindo que minha casa está sendo assaltada, preciso ir embora.

- Essa é a melhor hora do dia pra colher o manjericão da minha horta caseira, preciso ir embora.

- Lembrei que tenho consulta marcada no dermatologista em dez minutos, preciso ir embora.

Lembrou que morava em apartamento, não cultivava uma horta caseira e que tinha pavor à médico. Começou a suar frio na hora que o drive do som abriu, e achou que fosse ter um troço quando ela apertou play. Mas foi bem nessa hora, que ela virou pra ele, cabelo bagunçado, a pinta do lado esquerdo do queixo, a blusa do Homem-Aranha, a pele cor de leite sem nescau, e disse:

- Olha, eu sei que você sabe a história de cada faixa, sabe todas as mensagens supostamente subliminares da foto da capa e deve saber de có um punhado de curiosidades pra me contar. Sei ainda que você tá odiando que eu coloquei esse cd, porque esses caras pra você, são que nem filho único quando ganha o melhor brinquedo do condomínio: não divide com ninguém.
Então, eu vou lhe dizer. Eu gosto dos Beatles porque quando eu tinha seis anos, eu era louca por animais do mar e meu pai organizou a festa do amigo Polvo. E todo mundo da festa ganhava uma fita com a música 'Octopus Garden' gravada. Cresci ouvindo essa música e pra mim, ela tem cheiro de brigadeiro e do perfume do meu pai. Então, eu não vou roubar os Beatles de você, porque eles já são meus primeiro, tá?

Puxou-a pra si na mesma hora em que começava 'Come Together'. E enquanto sentia o cheiro do seu shampoo, fechou os olhos e não conseguiu não pensar:

- Porra, lá se vai Octopus Garden.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Acidez numa segunda-feira.

Eu quero que você saiba que eu parei. Parei de querer saber o que você vai fazer no final de semana, parei de olhar pra você de canto de olho todas as sextas-feiras naquela rua que a gente conhece tão bem, parei de tentar ser simpática com os teus amigos, parei de pensar no dia em que eu vou te apresentar a minha coleção de dvd's e a minha parede colorida. Parei de gostar dos teus beijos na calçada, parei de te achar tão engraçado e até parei de ficar ouvindo aquela música que você me mandou outro dia.
Parei com tudo isso. E sabe por quê?
Porque eu já sei que a única coisa que eu vou ganhar de você é uma gastrite.
Entendeu? Uma gastrite. E não é aguda não.
É crônica. Crônica.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Ainda bem que eu acredito em quase tudo.

Passei na sua rua ontem.
Atravessei bem na faixa de pedestres que fica na frente do seu prédio. Tentei calcular qual daquelas eram suas janelas, mas não consegui lembrar o andar do apartamento, só sabia que a varanda dava pra rua. Coloquei os óculos escuros que você gostava, apesar de sempre andar com dois na bolsa, passei a mão no cabelo do jeito que você comentava e o sinal ficou vermelho. Andei a faixa de pedestres devagar, sempre com os pés pisando somente nas listras brancas, neurótica desse meu jeito de sempre. A avenida é grande e tem duas faixas indo no mesmo sentido. Sempre achei isso uma idéia de girico, enquanto você dizia que tinha sido uma ótima solução pra aliviar o trânsito. E sempre que você dizia isso, eu dizia que aliviar é um verbo usado de mil maneiras, menos pra falar de engarrafamento; aí você me olhava com cara de censura, e eu trocava a música fingindo que aquela cara não era pra mim.
A faixa de pedestres era grande de verdade, e comigo insistindo em andar devagar, ela ficava maior ainda. Quando eu já tava pra lá da metade, e olhei de novo pro seu prédio, na esperança de te ver na varanda, eu acho que eu devo ter parado sem perceber, porque justamente nessa hora, veio a bicicleta, as cestas de pães na bicicleta, o mocinho da bicicleta e a próxima coisa que eu vi, foi minha mão roxa, as pessoas olhando pra mim e o moço da bicicleta pedindo desculpa, moça, pelo amor do meu deus. Saí andando rápido e subi no primeiro ônibus que passou.
Acho que aquilo não foi um semi-atropelamento causado por uma bicicleta, mas sim um sinal.
Foi isso sim, um sinal.

Domingo, Agosto 30, 2009

Sessão das 16h

É como se a sua vida fosse um filme desses que sempre passam aos sábados, final de tarde, na emissora de maior audiência. Você já viu não menos do que cinco vezes, mas sabe que nunca é a última vez: nem que vai passar, nem que você vai assistir. O estranho é que apesar de conhecer os personagens, o cenário, a história e o nome do diretor, você sempre sente que é a primeira vez que você vai gastar 2h e meia esparramada no sofá, quase dormindo, quase acordando assistindo um filme quase-velho e quase-bom.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

O Dylan sabe das coisas.

Você não merece figurar todas as minhas conversas com todo mundo que me pergunta como estão as coisas, não merece o livro do Rubem Fonseca que eu comprei pra você no Sebo escondido da Augusta, não merece ter seu número apagado do meu celular, você não merece ser as cervejas a mais que eu venho tomando nos finais de semana, e não merece muito menos, ser o motivo de todas as minhas ressacas do último mês. Você não merece que eu tenha largado Ella Fitzgerald, que eu tenha rasgado meus três últimos contos e nem as nossas datas que estão circuladas no calendário atrás da minha porta. Você não merece a vontade que eu tenho todo dia de te abraçar, de te beijar, de te dizer que seja doce, que seja doce, que seja doce, e depois te olhar, sentir a tua mão tirando o meu cabelo da testa e me chamando de linda daquele jeito que eu até consigo acreditar. Você não merece que eu acorde pensando em você comigo e vá dormir pensando em você com ela, não merece que eu tenha dividido o meu picolé preferido, nem que eu engula seu nome e minta pra mim mesma que não podia ter sido diferente. Você não merece que eu tenha acreditado, mesmo sem acreditar, nas tuas meias verdades, nos teus sorrisos e na tua vontade de mim, não merece as minhas azeitonas sem caroço, meus livros do Milan Kundera cheios de anotações, os planos todos que eu fiz sem perceber e nem a melhor noite de sexta que eu consigo me lembrar. Você não merece achar engraçado porque eu chamo minha mãe pelo nome, não merece aquela banda de Jazz linda que você me mostrou, não merece a minha fuga dos Jobs, não merece o povo da Agência perguntando o que é isso que eu tô escrevendo, porque eles também acham que redator só escreve título. Você não merece que eu ache mais uma vez, que a culpa é minha, que eu podia ter feito diferente, que eu não sou bonita o suficiente, inteligente o suficiente, engraçada o suficiente, e nem desapegada o suficiente. Mas isso, eu não sou, e me orgulho em não ser. Você não merece o meu bar preferido, não merece o meu quarto colorido, não merece os sambas de domingo, nem me ver dançando Billie Holiday no espaço entre a geladeira e o fogão. E já que você é você, e acha que o Dylan canta mal, eu nunca vou te chamar pra cortar cebola comigo, porque eu prefiria que você não tivesse sido o primeiro, prefiria que você não tivesse estacionado o carro na frente da minha casa e preferia, na verdade, já ter esquecido de tentar te esquecer.